Por Bruna Valêncio de Jesus Santos e Maria Fernanda Marinho Vitório

Há muito se debate se a vida imita a arte, ou a arte, a vida. Isso porque é recorrente utilizar manifestações artísticas para demonstrar como a história se repete, e, especialmente, para ilustrar como grandes líderes, uma vez imbuídos de poder, o utilizam de forma autoritária e acabam por colocar em risco os direitos individuais. Filmes, séries e livros que expõem esse tipo de problemática atraem o público que procura, a partir do uso de instrumentos intertextuais, compreender a realidade que o cerca através deste tipo de entretenimento. Dessa forma, propositalmente ou não, acabam por instigar debates que apontam para a relevância e urgência de determinadas discussões.

Isso é precisamente o que ocorre com a personagem Hope Haddon, de Sex Education. A série britânica da Netflix, que já se propunha a realizar críticas sociais, amplia o seu objeto de questionamento ao estabelecer um “quadro comparativo” histórico. Por mais que o elemento central da obra não seja um apelo político que denuncia o totalitarismo, em determinado ponto da nova temporada, lançada em 2021, ocorre uma reviravolta que transforma o ambiente da série em um espaço autoritário e permite reflexões. 

A obra gira em torno de Otis Milburn, um adolescente filho de uma terapeuta sexual e de relacionamentos que, juntamente com sua colega Maeve Wiley, se incomoda com a carência de educação sexual dentro do seu colégio. A partir disso, eles veem uma oportunidade de abrir uma “clínica” para tratar os problemas dos alunos de Moordale e alertar para a importância desse tipo de discussão. Assim, eles marcam encontros com alunos que procuram entender melhor o seu corpo e os meios de se manterem sexualmente seguros.

Contudo, o ambiente escolar muda drasticamente com a queda do então diretor de Moordale, Michael Groff, que é substituído pela jovem e promissora Hope Haddon. Ela se apresenta como uma mulher progressista determinada a melhorar a imagem do colégio perante a imprensa e garantir um futuro brilhante aos alunos. A nova diretora causa excelentes primeiras impressões e conquista a confiança dos estudantes, que mal imaginam as suas reais intenções. Nos primeiros dias da ocupação de seu cargo, Hope adota uma série de medidas autoritárias, como a proibição do uso de piercings e tinturas no cabelo – sob a justificativa de que “podem achar que você não é tão inteligente quanto realmente é”, frase que ela dirige à Maeve –, a imposição de andar em fila única seguindo uma fita amarela colocada no chão, entre outras. Assim, sob a regência da frase “Non Sibi, sed Toti” (“por todos, não por um” ou “não para si mesmo, mas para o todo”), que é evocada no novo hino de Moordale institucionalizado por Hope, os alunos passam a ser sujeitos a um ambiente que muito se assemelha com o de um Estado totalitário.

É difícil, conforme afirma Hannah Arendt, enumerar as características de um regime totalitário. Dessa forma, para facilitar a analogia, serão utilizados como base os governos de Hitler na Alemanha (1939-1945) e o de Mussolini na Itália (1929-1943). 

O primeiro ponto de similaridade está no fato de que os antecedentes de ambos os governos envolviam crises econômicas e uma sensação generalizada de fracasso com os rumos do país. No contexto da República de Weimar, a derrota e subsequente humilhação da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, somadas a uma forte inflação e a uma taxa de desemprego que, no seu auge, atingiu 5 milhões de alemães foram características decisivas para que os eleitores adotassem uma ideologia mais radical: o nazismo. Já na Itália, ainda que o país estivesse do lado vitorioso da Primeira Grande Guerra, os cidadãos se sentiram desfavorecidos na partilha de territórios. Além disso, o país foi bruscamente afetado em sua organização econômica, o que gerou uma crise e diversos embates com os trabalhadores industriais. Da mesma forma, quando Hope – que, curiosamente, carrega a palavra “esperança” (tradução do inglês da palavra “hope”) em seu nome – ascendeu à posição de diretora de Moordale, a escola estava com a reputação em frangalhos após os escândalos envolvendo surtos de ISTs, musical com temática erótica e a incapacidade do diretor anterior de controlar os alunos e professores, levando a uma queda no número de alunos e, consequentemente, do seu faturamento. Todos esses fatores exerceram uma enorme pressão em Hope, que, em determinada cena, é ameaçada explicitamente pelo seu chefe de perder o emprego se não radicalizar seu discurso contra “subversividades” e conduzir a escola com punhos de ferro.

O segundo ponto similar entre o contexto histórico discutido e o novo comando do colégio Moordale está na forma como os líderes em questão conquistaram a confiança de seus comandados. A Alemanha e a Itália se encontravam num cenário de pós-guerra que abriu espaço para o advento de governos radicais que prometessem acabar com a crise na qual se encontravam, e, através de discursos que apontavam para a grandiosidade desses países, ganharam apoiadores sob a influência do nacionalismo. A esse respeito, o historiador especialista em nazismo Andrés Reggiani, em entrevista à revista Superinteressante, afirma que “a incapacidade psicológica alemã para aceitar a derrota e as reparações criou um terreno extremamente fértil para o crescimento de um nacionalismo radical, do qual o nazismo seria a expressão mais extrema”.

Já o sentimento revanchista italiano ascendeu ao poder um ex-combatente que, em seus discursos, se identificava com o sofrimento da população e exaltava o título vitorioso da Itália, ao mesmo tempo que cogitava a possibilidade de novas guerras se fosse necessário para reafirmar essa condição:

Nessa cidade fronteiriça, que não teme mais a guerra, eu declaro, para que todos ouçam, que a Itália pratica uma política de paz, de paz verdadeira, que não pode ser dissociada da justiça, de uma paz que deve servir de exemplo à Europa, de uma paz que deve ascender nos corações a chama da esperança da fé. Nenhum inimigo é pior para a paz do que o falso pacifista. Mas essa luta já está ganha desde o começo, pois seu começo já delineia os princípios que regem o Império. A vitória é nossa! Já vencemos e sempre será assim! Mas… é do ponto de vista humano, pois só de pensar no sofrimento de uma família, isso me causa igualmente um sofrimento físico, porque eu sei, por tê-lo, provado, o que quer dizer. O que quer dizer a casa deserta e a mesa vazia. […] a palavra é essa: caminhar, construir e, se necessário, combater e vencer!

“Discurso de Mussolini – legendado em Português-BR”. Retirado de https://www.youtube.com/watch?v=CppNPV0gA3M

Da mesma forma, os alunos de Moordale se enturmaram com a nova diretora quando, em seu primeiro discurso, ela aparece dançando no palco do auditório do colégio, criando um ambiente descontraído que diverte os alunos. Em seguida, Hope não somente apresentou-se como “uma deles”, por ter sido estudante do colégio no passado, mas também convenceu-os com seu brilhante currículo, contando que era a “diretora mais jovem do Reino Unido”. Ela contou que viveu os “melhores anos de sua vida” em Moordale, que o colégio lhe fez encontrar o seu “propósito” e que, por isso, não aceitava ler tamanha abordagem negativa ao colégio pela imprensa, prometendo, em seguida, mudar essa condição. Disse aos alunos o seguinte: “se vocês trabalharem duro e se orgulharem de sua escola, vou colocar Moordale e seu futuro de volta aos trilhos”, pedindo a eles pela repetição da expressão “de volta aos trilhos”, que ocorreu como o ecoo de um grito de guerra. Hope ainda tratou os alunos, naquele momento, de modo gentil e individualizado, prometendo futuros brilhantes, bolsas de estudo, e incentivando iniciativas particulares dos alunos, como a clínica de Otis e Maeve. 

Outro aspecto muito parecido foi a tentativa desses líderes de massificar a população, arrancando suas personalidades e direitos individuais em prol do coletivo. Esse processo, defendido pelo principal teórico do nazismo, Carl Schmitt, visava garantir uma homogeneidade social, já que, para ele, uma sociedade heterogênea significava a desordem e, por conseguinte, o retrocesso científico e econômico. Essa ideologia é claramente compartilhada por Hope, que instituiu a obrigatoriedade do uso de uniformes femininos e masculinos no colégio Moordale – o que causou outra problemática entre alunos que se identificavam como não-binários –, e pintou os seus armários e paredes de um mesmo tom de cinza, apagando os traços de personalidade de seus donos. Isso foi muito impactante naquele cenário, onde cada aluno possuía sua individualidade muito bem definida para o espectador. Além disso, a imposição de andar em fila única tinha por objetivo, como a própria diretora diz, “colocar Moordale na linha”, isto é, padronizar até mesmo a forma de andar dos alunos para que, supostamente, “pensassem com mais clareza”. O filósofo pós-moderno Michel Foucault estudou justamente essa ideia do ambiente escolar como sujeito a uma espécie de “micro-poder”, que, refletindo o fenômeno autoritário adotado pelos Estados governados por Hitler e Mussolini, constroem uma hierarquia com o objetivo de impor a ordem, a exemplo do ocorre em Moordale. Assim, ele pontua:

A exigência da distribuição das classes em fileiras, com alunos em ordem e uniformizados tem como objetivo garantir a obediência dos alunos, e uma melhor utilização do tempo. Cria espaços funcionais e hierárquicos, (…) trata-se de organizar o múltiplo, de se obter um instrumento para percorrê-lo e dominá-lo, trata-se de lhe impor uma ‘ordem’.

(FOUCAULT, Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1977, p. 135)

As semelhanças se aprofundam ainda mais quando percebe-se a aproximação entre as formas de repressão daqueles que não se encaixassem dentro das regras dos regimes totalitários do século XX e do colégio Moordale. Embora as punições dos governos nazifascistas englobassem, também, violência física e horrores que deixaram profundas marcas na humanidade, tanto estas como aquelas promovidas por Hope tinham como fundamento a marginalização de pessoas não obedientes e a eliminação de indesejáveis. Ela o fazia através da violência moral e humilhação pública dos estudantes, chegando até a utilizar-se do cárcere privado como punição.

Sex Education, temporada 3, episódio 6. A imagem retrata a cena mais marcante da postura da diretora Hope, que pune três alunos ao posicioná-los no palco do auditório do colégio, frente a todos os outros colegas, carregando placas que descrevem seus erros de maneira humilhante. Além disso, a diretora proibiu os três alunos de se comunicarem com os demais. (Reprodução/Netflix)

Apesar da brutalidade da repressão, muitos foram aqueles que, corajosos, reagiram bravamente aos governos nazifascistas, o que não foi diferente no cenário de Sex Education. Um exemplo emblemático foi o de Maeve, que se recusou a retirar a tinta roxa de seu cabelo para manter a sua individualidade. Outro foi o de ume alune não-binárie que decidiu não usar o uniforme feminino repetidas vezes, desobedecendo as ordens da diretora. Também foi organizada uma manifestação de resistência por todos os alunos, com o objetivo de defender sua liberdade artística frente a censura que Hope impôs durante todo o seu cargo: uma apresentação audiovisual cheia de elementos moralmente repreensíveis como forma de protesto. 

Sex Education é um exemplo de como a arte imita a vida. Apontar a necessidade de identificar elementos autoritários não somente em um movimento estatal ou outro, mas também nos diversos ambientes do dia-a-dia é essencial para disseminar conhecimento e despertar atenção para que a população se levante contra a repetição da história que já reprimiu e matou milhões. Assim, mesmo que aparente ser apenas mais uma série teen, a obra levanta questionamentos muito importantes e auxilia na conscientização de pessoas mais jovens sobre as liberdades individuais e direitos civis, sociais e políticos. Isso porque, como muito bem colocado pelo personagem Rahim, aluno de Moordale, “é sobre controle”. E continua: “Vamos ser colocados em caixinhas. Nunca é só uma linha”.

Referências

Imagem: Reprodução/Netflix

Publicado por Maria Fernanda Marinho Vitório


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