Por Fernanda Aparecida Lopes Balthazar

Ao longo da História, as pessoas com transtornos mentais eram qualificadas como “perigosas”, “doentes”, “anormais”, “especiais” ou, sobretudo, “loucas” – registros relatam como a “loucura” adquiriu conotações divergentes com o passar dos anos, passando de natural a patológica, assim como é possível observar os diferentes locais destinados às práticas de cuidado da saúde, de modo que os pacientes frequentaram asilos, hospitais e, posteriormente, hospícios ou manicômios. No Brasil, com os inúmeros óbitos ocorrendo nesses manicômios, os trabalhadores de saúde mental mobilizaram-se em diversas cidades do país – movimento esse que culminou na Reforma Psiquiátrica e, consequentemente, na promulgação da Lei Antimanicomial (Lei n.º 10.216/2001), que visava reformular o modelo assistencial no panorama da saúde mental brasileira.

Contudo, embora a legislação atual esteja pautada na concessão de recursos para que os pacientes psiquiátricos recebam o devido tratamento em alas específicas dos hospitais gerais, é patente que a verba destinada a essas instituições não garantem a assistência necessária a todos os pacientes – segundo a Organização Pan-Americana de Saúde, em países de baixa e média renda, entre 76% e 85% das pessoas com transtornos mentais não recebem tratamento. Assim, uma vez que o sistema de saúde brasileiro não respondeu adequadamente à carga dos transtornos mentais – ou então os cuidados prestados são de má qualidade – é urgente a necessidade de reformulação de políticas públicas que viabilizem condições para a promoção da saúde mental, com auxílio dos serviços de saúde e de apoio e cuidados sociais, principalmente ao se considerar que a atual conjuntura ameaça a dignidade humana e as chances de reintegração social das pessoas com transtornos mentais – em um sistema falho, muitos pacientes que apresentam altas chances de recuperação evoluem para quadros mais graves.

Nesse sentido, ressalte-se que a maior premissa sobre a saúde mental é a necessidade de superar mitos e conceitos errôneos, haja vista que a falta de conhecimento pode ser prejudicial à recuperação do paciente: a “Psicofobia” – isto é, o estigma relacionado às doenças mentais –  é nociva e gera preconceito e discriminação, impedindo a busca de soluções adequadas para dirimir os efeitos dos transtornos e, muitas vezes, desencorajando pessoas que realmente precisam de orientação ou tratamento. A importância que as discussões e estudos sobre esse tema vem ganhando é positiva, de modo a propiciar um ambiente de aceitação e acolhimento no convívio social aos pacientes, enquanto membros participantes da sociedade. Frequentemente, as doenças psiquiátricas são vistas como “frescura” por não serem palpáveis ou visíveis, cabendo à sociedade como um todo entender que cada indivíduo é válido e merece o respeito coletivo, pois uma vez inseridos em um ambiente acolhedor e social, e existindo um diagnóstico preciso, a maioria das doenças mentais pode ser tratada de maneira eficiente – daí a importância de combater a discriminação e o preconceito enraizados na mentalidade brasileira.

Assim, é necessário elucidar que os transtornos mentais consistem em disfunções da atividade cerebral que podem afetar o humor, o comportamento, o raciocínio, a forma de aprendizado e a maneira de se comunicar com outrem. Entre os transtornos mais comuns estão a depressão, o transtorno de ansiedade, o transtorno do déficit de atenção, o transtorno obsessivo-compulsivo, o transtorno afetivo bipolar, o estresse pós-traumático, a esquizofrenia e outras psicoses, como a demência, a deficiência intelectual e os transtornos de desenvolvimento, incluindo o autismo. Não existe uma causa definida para esses tipos de distúrbio, porém os avanços científicos permitem estabelecer uma relação entre fatores genéticos e a incidência desses transtornos – cumpre consignar, ainda, que nutrição, exposição a perigos ambientais, luto, traumas, situações de estresse extremo também são fatores que contribuem para o desencadeamento de transtornos mentais.

Por não manifestar sinais ou sintomas físicos claros, os transtornos mentais foram ignorados por muitos anos na trajetória da Medicina. Hoje, com o avanço da psicopatologia desenvolvimental – disciplina que integra perspectivas epidemiológicas, sociais, genéticas, desenvolvimentais e de psicopatologia para entender as origens e o curso dos transtornos mentais –, esses distúrbios foram estudados de maneira mais aprofundada, propiciando o desenvolvimento de tratamentos eficazes e maneiras de aliviar o sofrimento dos pacientes. Nota-se, entretanto, que ainda não há uma forma comprovada de prevenir transtornos mentais, de modo que investir no bem-estar individual e no fomento ao acolhimento social proporciona a melhora da qualidade de vida desses pacientes.

De mais a mais, a título de verossimilhança, um exemplo visual – ainda que não generalista, pois cada transtorno mental se apresenta de diferentes formas – é a retratação dos personagens presentes no desenho animado “Ursinho Pooh”: os pesquisadores da Universidade de Ave, no Canadá, conduziram o estudo e encontraram indícios suficientes nos episódios analisados para sustentar a tese de que cada personagem do desenho inspirado nas obras de Alan Alexander Milne representa uma doença mental, conforme será a seguir discorrido.

POOH

Transtorno alimentar, representado por sua necessidade constante de comer mel, e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), em razão de sua dificuldade em manter o foco em uma atividade.

LEITÃO

Transtorno de ansiedade generalizada, facilmente percebido em seu comportamento constantemente ansioso: qualquer coisa que aconteça ou que possa vir a acontecer é motivo para alarde, de modo que movimentos repentinos e barulhos diferentes são suficientes para fazê-lo correr.

TIGRÃO

TDAH, assim como Pooh, mas com foco na hiperatividade. O tigre não consegue manter-se parado por um instante sequer, sendo extremamente ativo, mesmo quando sabe que precisa de um descanso. Ele também parece apresentar transtorno bipolar, alterando seu estado de humor de muito alegre para muito triste de um momento para outro.  

BISONHO

Depressão. Ele sempre apresenta um olhar triste e negativo para a vida, nunca sentindo emoções positivas, como felicidade e entusiasmo. Segundo os pesquisadores, essa depressão severa, também conhecida como distimia crônica, faz com que ele permaneça em um estado de mau-humor contínuo, fazendo-o chegar ao ponto de parecer confortável com a tristeza.

ABEL

Transtorno obsessivo-compulsivo, haja vista que está sempre contando, recontando, arranjando e rearranjando tudo e todos de sua vida, chegando ao ponto de incomodar seus amigos – se as coisas estão fora de ordem, Abel sente fortemente a necessidade de organizá-las.

GURU

Autismo. Apesar dos avisos frequentes de sua mãe, preocupada com sua segurança, Guru frequentemente deixa de prestar atenção ao que está acontecendo ao seu redor, fazendo-o entrar em situações perigosas diversas vezes. Além disso, sua outra atividade preferida é ficar na bolsa de sua mãe, sem muito interesse em aventuras. De acordo com os pesquisadores, esses dois extremos definem seu autismo.

CORUJÃO

Dislexia. Dentro do universo de “Ursinho Pooh”, o Corujão é o único capaz de ler e escrever. Entretanto, ainda assim ele comete alguns erros e apresenta lentidão em sua leitura.

CRISTOVÃO

Esquizofrenia. Cristovão é a criança que vê todos os personagens, porém acredita-se que eles sejam meras imaginações.

Recentemente, muitas pessoas têm compartilhado na internet o “Teste de Patologia do Ursinho Pooh” – nele, o internauta responde 33 perguntas e recebe um gráfico dizendo qual porcentagem atingiu ao que corresponde cada personagem do desenho e, portanto, quais seriam as condições psiquiátricas de que dispõe. Contudo, não é possível diagnosticar patologias mentais em um questionário de autoavaliação como esse, de modo que, para um diagnóstico preciso, é ideal observar o modo pelo qual o comportamento de um indivíduo evolui, acompanhado de um profissional habilitado e especializado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

“A saúde mental e a importância dela na vida das pessoas”. Publicado pelo Hospital Santa Mônica, em 25 de maio de 2018.

“Conceitos e preconceitos sobre transtornos mentais: um debate necessário”. Publicado em PePSIC, Rev. Eletrônica Saúde Mental Álcool Drog. (Ed. port.), v. 8, n. 3, em dezembro de 2021. 

“Em busca das origens desenvolvimentais  dos transtornos mentais”, Guilherme V. Polanczyk. Publicado em SciELO, Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul, 2009. https://doi.org/10.1590/S0101-81082009000100005

“Falta de informação ajuda a estigmatizar transtornos mentais”. Publicado no Portal Drauzio Varella, revisado em 11 de agosto de 2020. 

“O que o ursinho Pooh pode nos ensinar sobre os transtornos mentais”. Publicado em Vittude, em 19 de julho de 2018.

“Teste do Ursinho Pooh: Por que não dá para identificar autismo e TDA assim?”. Publicado na UOL, em 2 de junho de 2019.

“Transtornos Mentais”. Publicado pela Organização Pan-Americana da Saúde.

“Tudo o que você precisa saber sobre transtorno mental”. Publicado pelo Hospital Santa Mônica, em 14 de março de 2018.

Publicado por Fernanda Aparecida Lopes Balthazar


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